Precisamos falar sobre terapia

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Você ir lá, descarregar seus problemas nos ombros de um desconhecido por uma hora e ir embora. Conversa com um amigo, pô! Nunca entendi a eficácia quando era mais jovem, mas agora começo a entender a importância de se falar sobre terapia.

Me lembro de ir a uma sessão em família quando era muito jovem, pré-adolescente. Era para ajudar a minha irmã que sofria de distúrbio bipolar. Entrei no consultório com meus pais, minha irmã e a terapeuta.

Até hoje não lembro o que foi dito, mas devo ter ficado lá por cinco minutos quando foi me perguntada a primeira coisa. Eu disparei a chorar copiosamente e nunca mais voltei. Disse que não era para mim. Não conseguia. Talvez isso fosse um sinal de que algo mais sério estava dentro de mim, sei lá.

Continuei vivendo minha vida, vendo meus amigos tratando de suas cabeças dentro de um consultório e sempre achava uma baboseira sem fim. Se você tem alguém em quem confia para colocar para fora as suas angústias, porque pagar por isso? Mas, cada um com seu cada qual, se você é feliz assim, ok por mim.

Uma vez, perguntei para minha irmã, quase formada em Psicologia naquela época, como funcionava uma sessão de terapia. Primeiro de tudo, ela disse que essa conversa não faria sentido porque ela não poderia me tratar. Coisa de relações muito próximas, sabe? Tem que ser um desconhecido mesmo para te ajudar, sem julgamentos. Mas eu não estava satisfeita, queria entender mais.

Eu e minha irmã <3

Contei algumas questões que estava enfrentando no momento e ela me ouviu pacientemente sem dar um pio.

Quando eu terminei, ela falou:

“Mas o que você acha?”

Pronto! Minha teoria estava comprovado.

Se estou na frente da terapeuta e ela olha para mim com aquela cara blasé perguntando o que eu acho, qual é o sentido de estar lá? Posso pensar em casa sozinha, tomando meu chá, olhando para o lado de fora da janela em um dia melancólico e chuvoso, né não?

Não. Não é não.

Aprendi da maneira mais dura que se pode imaginar que a nossa saúde mental é coisa séria.

Primeiro, minha irmã decidiu ir embora desse mundo e tempos depois eu me vi perdida em uma terra tão, tão distante onde vivo agora. Me descobri com depressão. Uma coisa que você não quer chamar de doença porque talvez seja só tristeza, melancolia.

Muitas vezes mal ou não diagnosticada simplesmente por ser considerada um tabu na sociedade. Ainda nem tenho certeza do diagnóstico. Porém, estima-se que mais de 300 milhões sofram com o transtorno no mundo, 11,5 milhões no Brasil, com 800 mil mortes por suicídio a cada ano.

Não quero tornar esse texto melancólico e pesado mas trazer luz para um problema que está nos cercando e que precisa ser falado.

Você nunca está sozinho!

Não importa os desafios que você já enfrentou, está vivendo agora ou vai encarar mais para frente. Sempre tem alguém bem do seu lado que pode estar vivendo algo muito parecido. Mas a verdade é que quando você está extremamente triste, não vê sentido mais na vida, tem pensamentos suicidas, não consegue tirar essa dor de não se sentir importante de dentro de você, a sensação é de completo desentendimento com o mundo a sua volta e abandono.

Você acha que ninguém te entende e muitas vezes, as pessoas não entendem mesmo porque isso não é falado, aquela coisa de colocar para debaixo do tapete a sujeira que você não quer limpar agora. Mas essa poeira vai estar sempre lá e a gente tem que dar um jeito de se livrar dela. Aí que a terapia entra. Na sua parte mais suja que você procrastina em limpar.

A gente não tem tempo de sentar na janela com o chá quente e pensar nas nossas questões. É uma visão muito romântica e ingênua. E, por outro lado, falar em voz alta é muito importante. Perdi a conta de quantas vezes disse uma coisa em voz alta e fiquei remoendo sobre aquilo por semanas, porque nunca tinha imaginado que eu pensava daquele jeito.

Como tudo na vida, a gente precisa se forçar a sair da inércia e ficar cara a cara com os problemas. E, acredite, eles não vêm só em forma de boletos. O nosso cérebro é tão complexo que vamos viver a vida toda sem entender tudo o que passa ali dentro. Mas tudo bem também.

Estar confortável com o desconforto também faz parte da vida.

O que mais importa é se permitir olhar para dentro de si e analisar suas próprias angústias, medos, dores e até alegrias. O consultório não precisa ser um muro de lamentações, mas um lugar de autoconhecimento que a gente esquece de olhar, vai deixando de lado.

Eu fiz isso desde aquela primeira sessão para ajudar a minha irmã no processo dela de tentar se desvendar. Hoje, já com acompanhamento de uma terapeuta, sei que nada sei. E tudo bem também.

Desconfio das pessoas que têm certeza do que elas são. Eu mudo constantemente e tenho sido gentil comigo mesma vendo que sou uma coisa em construção. Sempre. Longe da perfeição, mas sempre buscando respostas para os meus próprios questionamentos.

E vida que segue!

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