A morte e o amor impossível de Alphonsus de Guimaraens

A morte, o amor impossível e a solidão de Alphonsus de Guimaraens /evolua.vc

Um poeta místico, que carregava forte envolvimento com a religiosidade católica da época. A expressão da sua arte foi marcante. Sonetos que toca a alma, carregados de uma profunda sensibilidade. Para falar de um tema já presente no Brasil dos anos de 1880.

A ausência de força contrária as surpresas da vida, o marcaram, sendo claramente revelada em suas obras. Uma aceitação, uma resignação diante dos sofrimentos e dores que viver nos imprime ao longo da vida.

Alphonsus de Guimaraens /evolua.vc
Alphonsus de Guimaraens /acervo Museu Casa Alphonsus de Guimaraens

Em tempos de quarentena, o novo normal, brigar contra o que se apresenta como inevitável, é o que nos possui. Tristeza, separações e desentendimento. Tudo porque não aceitamos com facilidade as manobras que viver nos emprega.

Já Alphonsus de Guimaraens meditava, enquanto em pleno 2020 denúncias de agressões contra mulher aumenta. Há mais de 100 anos atrás, o poeta utiliza da figura feminina para falar sobre anjos, sinônimo de perfeição, chegando a comparar a mulher, a um ser celestial.

Intitulado neorromântico por alguns, simbolista por outros, Guimaraens consagrou sua poesia como um dos principais autores simbolistas brasileiro que marcaram o início do século XX. Suas poesias são quase em totalidade voltadas para a dor perda, da angústia e da morte.

A mudança surpresa e inesperada, a partida precoce da amada tão desejada. Alphonsus de Guimaraens era um homem cingido de propriedade sobre as dores que relatava. Suas poesias são banhadas em lágrimas de uma dor que se dedicou em compartilhar.

O ano era 1887 e Guimaraens, ingressou na Faculdade de Engenharia, dois anos depois, recebe o primeiro forte golpe de sua vida. Constança, uma jovem cuja formosura lhe era radiante, sua noiva, com quem tanto sonhava em casar, morre precocemente. A morte jamais imaginava, daquela que por horas se perdia em pensamentos o abala quase que fisicamente, fazendo o novato poeta mergulhar no que hoje denominamos profunda depressão.

Constança Guimaraens /evolua.vc
Constança Guimaraens /acervo Museu Casa Alphonsus de Guimaraens

Em meio a um turbilhão de sentimentos negativos, triste e desapego a vida, em 1900 Guimaraens, passa a trabalhar como jornalista, se tornando colaborador da Gazeta, na metrópole paulista do início do século XX. Envolvido profundamente com a reflexão e a escrita, pública anos depois, Kyriale, obra que reúne em poesia, um resumo de seus pensamentos. Trabalho que o consagra no meio literário, conquistando reconhecimento no meio em que atuava.

Entre inúmeras obras, compartilhamos a Saudade:

Uma mulher que por amar soluça,
Na torre da minha alma se debruça.

E despenha-se o luar na encosta do monte,
Tranquilamente, como um fonte.

Dois ou três demônios familiares
Passam cantando, para voar logo após pelos ares.

E despenha-se o luar pela encosta do monte.
O monte fica defronte

Da torre da minha alma onde soluça
Essa mulher: e quando o sol entre as nuvens se embuça,
Nas horas mortas dos crepúsculos tão vagos,
De azul, vestida como o céu, como o céu misteriosa,
Ela abre os olhos imortais, como dois lagos…

Virgem Piedosa!
E os sonhos passam, cisnes que não cantam mais,
No infinito dos seus olhos imortais,
Abertos para a eternidade…

Pobre mulher, pobre Saudade!

Nas versos acima, é possível notar a profundidade e tamanho sentimento que Guimaraens, carregava em seu peito. Constança, como relata, era figura presente em seus pensamentos. Por muito tempo sofreu com a dor cruel e inesperada. Mas também entendeu que maior que lamentar sua perca irreparável, também era necessário comunicar a todos a beleza em se valorizar, em tornar evidente, os valores que carregamos.

Tamanha excelência de personalidade se reunia em um homem cuja simpatia e educação eram exemplar. Os valores do homem que se tornara ficaram gravados em sua família. Casou-se com Zenaide de Oliveira, com quem teve quatorze filhos, sendo entre eles 8 mulheres e 6 homens.

O filho que mais conviveu com o pai, foi João Alphonsus, respirava sua personalidade, começando a escrever desde muito cedo. Se tornando décadas depois um dos responsáveis pelo movimento modernista em Minas Gerais.

Mas se engana aqueles que acreditam que apenas a convivência física pode nos marcar. Engane-se lamentavelmente. Nossos valores são tão ricos e preciosos que podem nos marcar por gerações a fio.

Exemplo foi Alphonsus de Guimaraens Filho, justamente o filho que não conheceu o pai.

Alphonsus de Guimaraens Filho /evolua.vc
Alphonsus de Guimaraens Filho /acervo Museu Casa Alphonsus de Guimaraens

Mas recebeu toda sua herança de valores e pensamentos, sendo observador como o pai, em um dos seus mais conhecidos trabalhos, criado quando tinha 7 anos de idade, está “essa coisa”, que desnuda a dor sofrida pela ausência do pai:

Pelas vastas campinas
Cantando os passarinhos
Catando os capinzinhos
Para fazer os seus ninhos.

Estava pronto o seu ninho
O macho saiu a passear
Por que não volta cedo para o ninho
E fica só voando pelo ar?

Tamanho talento consagrou Alphonsus de Guimaraens Filho, décadas depois como o herdeiro principal do grande talento do simbolista de Mariana, Alphonsus de Guimaraens.

Deixando evidentemente claro, que

No final, de nada vale o que possui e sim o que você se torna!

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Fontes:

Jornal ESTADO de MINAS

Wikipédia, a enciclopédia livre

Projeto Livro Livre Iba Mendes

Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais

Blog Alma na Cultura do escritor Raymundo Netto

Comentários

Uma resposta para “A morte e o amor impossível de Alphonsus de Guimaraens”

  1. […] álbum AmarElo. Montenegro, já conhecia o texto que interpretaria: o poema Ismália, publicado por Alphonsus de Guimaraens em […]

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